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Os jovens e os ecrãs

Jovens e ecrãs

A tecnologia veio revolucionar o nosso mundo e, hoje em dia, vivemos rodeados de ecrãs: smartphones, tablets, televisões, computadores portáteis, computadores fixos, consolas…

Alguma desta tecnologia é recente e houve uma explosão na sua utilização nos últimos 20 anos. As crianças não são exceção e são expostas cada vez mais cedo a estas tecnologias.

Há muitos anos que sabíamos que o consumo excessivo de televisão se associava a atraso de desenvolvimento da linguagem. A criança aprende a falar na relação com um adulto disponível, que dá nome àquilo para que ela aponta e vai “traduzindo” as suas primeiras vocalizações na língua materna. Não é suficiente estar exposta aos sons impessoais de um dispositivo, de forma passiva, sem interação.

Os novos ecrãs tornaram tudo mais pervasivo: estão sempre disponíveis, com conteúdo muito apelativo, como vídeos, jogos e aplicações “educativas”. Invadiram as refeições, o tempo familiar, de passeio, de lazer, as viagens, as salas de espera, as consultas e até a hora de deitar e do banho!

Impacto da exposição excessiva a ecrãs

Os efeitos do consumo abusivo de conteúdos digitais no cérebro jovem e imaturo continuam a ser estudados. Sabemos que os vídeos e videojogos estimulam o centro do prazer e libertam dopamina, de forma não demasiado diferente ao de tantos comportamentos aditivos, provocando mesmo dependência.

Quando pomos um tablet ou smartphone na mão de um pequeno explorador de 2 anos, que mexe em tudo, explora, trepa, corre, pergunta, faz birras e asneiras, vamos estar a privá-lo de atividades essenciais e insubstituíveis para o seu normal desenvolvimento.

Vamos estar a alheá-lo do que o rodeia, a impedi-lo de sociabilizar, de conhecer e de mobilizar o seu corpo, de praticar a sua motricidade fina apanhando pedrinhas e bichinhos e de lidar com as suas frustrações e inevitáveis birras quando chega o momento de desligar.

A investigação médica revelou que o consumo de ecrãs em crianças de idade inferior a 6 anos estava associado ao excesso de peso/obesidade, pior desenvolvimento cognitivo e motor e a pior saúde mental e interação familiar.

Neste sentido, a Organização Mundial de Saúde, a Academia Americana de Pediatria e outras sociedades científicas internacionais (Índia, Canadá, Itália) emitiram recomendações relativas ao tempo de ecrãs para as crianças. Estas englobam todo o tempo despendido a ver ou jogar na televisão, tablet, smartphone, computador e consolas.

Até aos 2 anos, está contraindicado (com a exceção das videochamadas com a família e amigos). Entre os 2 e 5 anos, deveria ser limitado a 1h/dia, de preferência, com conteúdos de boa qualidade, desenhados para crianças. A partir dos 5 anos, o tempo de ecrã deveria ser restringido a 2 horas por dia.

Nem sempre os pais se apercebem do tipo de conteúdo que está a ser consumido. As crianças e os jovens podem ser expostos a conteúdos violentos, sexuais, de consumo de substâncias, informações falsas, anúncios dirigidos a crianças; podem ser inspiradas a fazer proezas ou desafios perigosos, ou, inadvertidamente, entrar em contacto com predadores ou cyberbullies.

Os efeitos adversos do consumo excessivo de ecrãs em crianças mais velhas e jovens pode ir das perturbações do sono à obesidade ou, pelo contrário, perturbações do comportamento alimentar e da imagem corporal, baixa autoestima, perturbações do humor, a baixa prestação académica, menos tempo de leitura, menos tempo com a família e amigos, pouca atividade física e ao ar livre.

Existe inclusivamente a perturbação de jogo pela internet (dependência de videojogos). É importante que as crianças e os jovens aprendam a relaxar e a divertir-se de outras formas que não sejam através dos dispositivos eletrónicos.

A hora das refeições deveria ser um momento privilegiado em família, livre de todos os ecrãs. Os ecrãs devem ser desligados entre 30 a 60 minutos antes de dormir (a exposição a luz azul de noite inibe a produção endógena de melatonina), e os alarmes devem estar desligados de noite.

Recomendações do uso de tecnologia para os mais novos

Recomendamos vivamente que os adolescentes mais jovens não durmam com o telefone no quarto. A televisão no quarto está contraindicada em todas as idades.

É fundamental criar hábitos saudáveis em família (a começar pelos adultos), de utilização dos dispositivos móveis e outros ecrãs, aproveitando todas as vantagens que estes trazem e minimizando os efeitos deletérios.

Alguns benefícios nas crianças de idade escolar e adolescentes são a exposição a novas ideias, aquisição de conhecimentos, proporcionar oportunidades de contacto à distância, acesso a informação de qualidade, nomeadamente médica.

Quanto mais jovem a idade, maior deve ser o cuidado a selecionar o conteúdo, para que seja de boa qualidade e adequado à idade. A criança pequena, idealmente, deveria estar acompanhada por alguém que vá conversando e dando sentido ao que está a observar.

Outras atividades de lazer, desportivas ou musicais, livres de ecrãs devem ser encorajadas.  As crianças mais velhas e os adolescentes, sobretudo, a partir do momento em que são utilizadores de smartphone devem falar com os seus pais sobre privacidade e segurança online.

Lidar com as tecnologias de forma saudável é um dos grandes desafios da parentalidade no século XXI – é fundamental o exemplo dos pais!

Isabel Saraiva de Melo
Coordenadora da Pediatria na Clínica da Mulher e da Criança do HCV

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