O Natal, nas suas diversas dimensões e expressões, não deixa de ser, para muitos, uma festa da família. É nesta convergência entre tradição, reunião, encontro e partilha que acontece, tantas vezes, o convívio intergeracional.
Os efeitos das interações sociais/familiares são para mim, enquanto internista, uma das componentes essenciais da avaliação global dos doentes que acompanho, através das quais posso também compreender o contexto e conhecer mais profundamente o ser humano que à minha frente se encontra.
É também destas experiências, como a de Natal, que procuro desafiar a vantagem e os benefícios que a quadra propicia e que tantas vezes vêm colmatar algum do sofrimento que muitos, principalmente mais idosos, experimentam ao longo do ano.
Para os idosos, o Natal é uma oportunidade de, pelo menos temporariamente, combaterem a solidão. Há tantas vezes o reencontro com filhos ou outros familiares distantes, a presença dos netos com a sua alegria contagiante, as casas que durante o ano vazias, de repente, ganham vida, cor e luz.
É o desafio de quem recebe: preparar as festividades na luz, nos enfeites, na confeção de pratos tradicionais e doces. Há ainda a vertente espiritual nas suas mais diversas expressões e que geralmente convidam à paz e harmonia, como é próprio desta festividade.
É o tempo de contactar ou ser contactado por alguém, amigo ou familiar, para desejar as Boas Festas. É um período propício a estimular pensamentos positivos, convívio e proximidade e com isso reduzir os níveis de ansiedade, tristeza e solidão.
Se o isolamento social pode ter impacto negativo significativo na saúde mental e física, aumentando o risco de depressão, ansiedade e declínio cognitivo, estar rodeado de familiares, especialmente dos mais novos, pode estimular a memória e as funções cognitivas através de conversas e atividades lúdicas, do recordar tradições, da partilha de histórias, da partilha de receitas, ou simplesmente da companhia e da presença dos mais novos com os mais velhos.
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É também uma época onde, especialmente em convívios familiares, as pessoas mais idosas se sentem mais incluídas e valorizadas. Para muitos filhos é o regresso à casa dos pais e para muitos netos é a experiência da casa dos avós, com todas as histórias que estas guardam e que em conversas familiares se partilham.
É a altura em que se pede à mãe ou pai, avô ou avó, para cozinhar aquele doce ou aquele prato que tanto confortam a alma. É assim um período bom para reforçar a autoestima e o sentido de propósito na vida dos idosos.
Benefícios do convívio intergeracional
Para os mais jovens, o contacto com os avós e outros familiares mais velhos durante o Natal é uma oportunidade única de aprendizagem e crescimento. Ao ouvir as histórias de vida e experiências passadas, as crianças e adolescentes podem desenvolver um maior respeito e apreço pela história e pelas tradições familiares.
Este intercâmbio de conhecimentos e valores é essencial para a formação de uma identidade cultural e pessoal, diferente das realidades diárias e cada vez mais presentes da tecnologia e dos ecrãs.
Para além dos benefícios individuais, o convívio intergeracional durante o Natal fortalece os laços familiares e cria um sentido de comunidade e apoio mútuo e esta coesão social cria um círculo de bem-estar e resiliência dentro da família e do próprio.
Do ponto de vista físico, os benefícios do convívio intergeracional também se manifestam. Muitos estudos mostram que o apoio emocional e social recebido em encontros familiares pode fortalecer o sistema imunitário, reduzir os níveis de stress e melhorar a recuperação de doenças.
Para os idosos, a presença de familiares mais jovens pode significar ajuda prática em atividades diárias, promovendo um ambiente mais seguro e saudável. É também nestes períodos em que os filhos, muitas vezes, se encontram mais disponíveis e aproveitam para levar os seus pais às consultas médicas para avaliação do estado de saúde, ou resolver algum problema, que nunca tiveram oportunidade de tratar, pois o isolamento os fez negligenciar ou não valorizar.
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É importante, no entanto, que este convívio seja equilibrado e respeitoso. O respeito pelos limites e necessidades de cada geração é fundamental para garantir que todos se sintam confortáveis e incluídos. As festas são exigentes e podem ser também desgastantes do ponto de vista físico e até emocional, pelo que, garantir que os mais velhos são amparados e que lhes é permitido descansar convenientemente, bem como, que a maior oferta de alimentos, principalmente doces, não se revele um excesso que possa descompensar alguma doença existente.
Boas Festas para todos!
Dr. Francisco Ferreira da Silva
Especialista em Medicina Interna e Diretor Clínico do HCV
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