A personalidade, vulgo maneira de ser, pode ser definida como um conjunto de padrões cognitivos, emocionais e comportamentais estáveis que são ativados em resposta a determinados estímulos ou circunstâncias de vida.
É constituída por dois componentes, o temperamento, de natureza inata, e o carácter que é determinado sobretudo por influências ambientais, nomeadamente as experiências vividas ao longo do desenvolvimento em diferentes esferas de interação pessoal.
Estes componentes estão sempre em pano de fundo nas pessoas doentes e saudáveis e determinam a forma como se adaptam a diferentes situações nas suas vidas. As características de uma perturbação de personalidade (PP) geralmente são reconhecíveis durante a adolescência ou no início da idade adulta.
Por definição, uma PP corresponde a um padrão mantido de experiência interna e de comportamento que se desvia marcadamente do que é esperado na cultura em que o indivíduo está inserido. Este padrão é inflexível e global, o que faz com que a pessoa que dela padece tenha dificuldade em se adaptar, por exemplo, a eventos adversos ou fases de transição no ciclo de vida.
Trata-se de uma perturbação relativamente estável ao longo do tempo que prejudica o funcionamento interpessoal. Induz elevado sofrimento psíquico ao próprio e aos que o rodeiam. Por este motivo, pode ser necessário oferecer também apoio psicológico aos familiares de quem dela padece ou pessoas próximas.
Tipos de Perturbações de Personalidade
Existem vários modelos teóricos de desenvolvimento da personalidade que foram conceptualizados a partir da investigação científica nas últimas décadas. Com base neste conhecimento, foi proposta uma classificação das PP, sendo que atualmente o Manual de Diagnóstico e Estatística de Perturbações Mentais (DSM 5) inclui na sua proposta 10 tipos diferentes de PP, organizados em 3 grupos ou clusters, cujas características estão abaixo resumidas. Podem coexistir na mesma pessoa traços de diferentes tipos de PP.
Cluster A inclui PP paranoide, esquizoide e esquizotípica
- PP paranoide – padrão de desconfiança em que as intenções dos outros são interpretadas como sendo malevolentes.
- PP esquizoide – padrão de desvinculação das relações sociais e amplitude restrita de expressão emocional.
- PP esquizotípica – padrão de desconforto em relações próximas; distorções cognitivas ou percetuais; excentricidade no comportamento.
Cluster B inclui PP anti-social, borderline, histriónico e narcísico
- PP anti-social – padrão de desrespeito e de violação dos direitos dos outros.
- PP borderline – padrão de instabilidade em relações interpessoais, na autoimagem e nos afetos; impulsividade marcada.
- PP histriónica – padrão de emocionalidade excessiva e de procura de atenção.
- PP narcísica – padrão de grandiosidade, de necessidade de admiração e de falta de empatia.
Cluster C inclui PP evitante, dependente e obsessivo-compulsiva
- PP evitante – padrão de inibição social, sentimentos de desadequação, hipersensibilidade à avaliação negativa.
- PP dependente – padrão de comportamento submisso e dependente relacionado com uma necessidade excessiva de ser cuidado.
- PP obsessivo-compulsiva – padrão de preocupação com a ordem, perfeccionismo e controlo.
PP devida a uma condição médica subjacente – distúrbio de personalidade persistente presumivelmente associado aos efeitos diretos de uma condição médica (ex. Lesão do lobo frontal).
Diagnóstico das Perturbações de Personalidade
O diagnóstico é realizado através da observação e entrevista clínicas, mais ou menos estruturadas, podendo ainda ser complementado com o uso de instrumentos psicológicos.
Em geral, um diagnóstico precoce e intervenções terapêuticas adequadas podem ser eficazes, melhorar a qualidade de vida dos doentes e interromper a via de cronicidade própria de condições não tratadas.
Com que frequência podem ocorrer Perturbações de Personalidade
As PP são no geral muito frequentes na prática clínica, estimando-se que cerca de 1 em cada 10 pessoas seja afetada. Influenciam a evolução e o tratamento das demais perturbações mentais coexistentes. Por exemplo, pessoas deprimidas e que tenham uma PP não respondem de igual forma aos mesmos métodos de tratamento que outros indivíduos deprimidos.
A PP borderline é atualmente a mais estudada por acarretar maior procura de cuidados de saúde e elevados custos sociais. É frequente a sua associação a uma história anterior de ambiente familiar disfuncional na infância/adolescência, exposição a negligência e maus tratos, abandono, trauma e ausência de validação e de contenção de experiências emocionais dolorosas.
Que tratamento pode ser oferecido
Quem padeça deste tipo de perturbação, normalmente procura o tratamento em consulta de Psiquiatria e/ou de Psicologia quando, perante um evento de vida adverso, por exemplo um episódio traumático, falham os mecanismos de defesa (de natureza inconsciente) habitualmente empregues.
A psicoterapia tem sido a principal abordagem terapêutica das PP. Existem diferentes linhas de tratamento e de contextos psicoterapêuticos. A psicoterapia cognitivo-comportamental, a dialética comportamental, a terapia baseada na mentalização ou a psicoterapia focada na transferência são modalidades de tratamento que podem ser benéficas.
Apesar de não haver nenhuma indicação formal para o uso de psicofármacos neste tipo de condições, pode ser necessária uma avaliação em consulta médica de Psiquiatria para ponderar o uso de medicamentos no caso de surgirem sintomas de outras perturbações psiquiátricas, como ansiedade, depressão, perturbações de adição.
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Num âmbito geral de tratamento, uma abordagem empática por parte dos diferentes profissionais de saúde pode permitir a internalização de um novo modelo de relacionamento e de vinculação seguros, de identificação e de tradução de estados emocionais, em paralelo com o desenvolvimento de uma capacidade reflexiva em torno de comportamentos menos adaptativos. Pretende-se, desta forma, ajudar a reduzir o sofrimento associado e os comportamentos que impactam na funcionalidade do doente.
Na Clínica de Neurociências e Saúde Mental do Hospital Cruz Vermelha dispomos de uma equipa multidisciplinar, constituída por médicos psiquiatras e por psicólogos, habilitada a tratar aqueles que sofrem diretamente com este tipo de perturbação.
Dra. Inês Cargaleiro
Médica Psiquiatra e Coordenadora da especialidade no Hospital Cruz Vermelha
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Referências:
- Geddes J, Andreasen N, Goodwin G. (Ed.). (2020). New Oxford Textbook of Psychiatry. Oxford University Press (3rd)
- Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-5. (2014). American Psychiatric Publishing, Inc..
- Carlos Braz Saraiva e Joaquim Cerejeira (Ed.). (2014). Psiquiatria fundamental. Lidel.
- Gabbard, G.O. (Ed.). (2014). Gabbard’s treatments of psychiatric disorders (5th). American Psychiatric Publishing, Inc..
